... A noção, é relativamente jovem – data apenas de 1516, ano da publicação da Utopia de Tomas More – o fenómeno é tão velho como o mundo. ...
O filósofo, poeta e matemático iraniano Omar Khayyam expressou admiravelmente essa tendência e atitude na sua obra Rubiaiyat:
«Ah amor, pudéssemos eu e tu com Ele conspirar,
Para agarrar todo este lamentável Estado das Coisas,
Que quebraríamos em pedaços – e depois
Moldaríamos de novo, mais perto daquilo que o coração deseja!»
A ideia que presidia às referências à «Idade do Ouro», na literatura dos antigos, representa uma saudade nostálgica de um tipo de vida que imaginavam livre das tensões e problemas da sua sociedade, mais competitiva, fria e comercial. De modo semelhante, as criações poéticas de autores medievais, repletas de descrições de jardins luxuriantes, autênticos paraísos terrestres imaginários, mas não eram que o reflexo das saudades que sentiam, o que resultava em insatisfação perante as coisas tal como elas se lhes apresentava. ... Até mesmo em comédias de Shakespeare a fuga da cidade para o campo, espaço de revitalização por excelência e a delineação de uma melhor sociedade são fascinantemente retratados.
Segundo o filósofo utópico alemão Ernst Bloch , autor de The Principle of Hope, a utopia nasce do “princípio da esperança”, do «sonho voltado para diante», a esperança dos homens num mundo melhor, num futuro mais suportável do que a existência presente.
A utopia participa da consciência antecipadora, não da lamentação de um mundo perdido para sempre. ... Os autores de utopias, se bem que desejosos de novidades, de modo nenhum possuem o dom da profecia. ...
O que se pretende fazer neste trabalho é esboçar uma breve história da literatura utópica mundial, contudo, não basta alinhar os títulos e as histórias, é fundamental nos dias de hoje suscitar a questão; a quem e a quê, de Platão a Wells, serviu a utopia? ...
Literatura Utópica anterior a More
“Um mapa do mundo em que não aparece o país Utopia não merece ser guardado”
Óscar Wilde
A história da literatura utópica é bastante extensa, contudo, antes da Utopia de More em 1516, é relativamente reduzido o número de obras consideradas genuinamente utópicas. A maior parte das obras desse género é breve e muitas delas não passam de visões nebulosas e nostálgicas de uma vida primitiva perdida, a já referida “idade do ouro”. A grande e principal obra, antes da de Thomas More no campo da literatura utópica foi sem dúvida a República de Platão . ...
Para começar, o tema central de ambas é a busca da justiça. ... C), obra escrita no período de maturidade do escritor, os governantes deverão ser um grupo de homens inteligentes e destituídos de qualquer tipo de egoísmo, os chamados guardiães ou reis-filósofos, capazes de conduzir os assuntos públicos para o bem de toda a nação. Vigorava o princípio da propriedade comum: «Nada é de ninguém»; como aliás se verificava na Utopia, pois também aí não existia propriedade privada.
Era proibida a cunhagem de ouro e prata e existia uma rígida proscrição contra o luxo e a ostentação. ... No esquema de Platão, e aliás como se sucede com o de More existia nesta sociedade idealizada, lugar para a prática da escravatura. ... Por outro lado há afastamentos de Platão na Utopia e alguns deles muito radicais. A República estabelece distinções de classes perfeitamente definidas – os intelectuais governantes, a classe guerreira, os plebeus, compreendendo os mercadores, artesãos e operários, e finalmente, ao mais baixo nível, os escravos. ... Na República, as mulheres e crianças são pertença comum – «não há casamento nem noivado», e o acasalamento é regulado para servir fins eugénicos; ao passo que na Utopia, a unidade familiar é extremamente valorizada e núcleo de toda a estrutura familiar:
«Em primeiro lugar a cidade compõe-se de famílias, e as famílias estão unidas, na maior parte dos casos, por laços de parentesco. ... »
Estas comparações sugerem apenas algumas semelhanças e diferenças entre as duas obras, o que nos leva a crer que More terá sido mais ou menos influenciado pelos escritos de Platão.
Os únicos autores antigos, para além de Platão que se considera terem escrito obras pertencentes à corrente utópica e que possam sugerir alguma comparação com More são, Licurgo , Cícero , Santo Agostinho e Hesíodo . Atribui-se ao legislador, orador e político Licurgo a elaboração de um conjunto de leis para a antiga Esparta, cuja melhor descrição se encontra no historiador Plutarco . Nessas antigas leis, Licurgo, declarou a igualdade de bens entre todos os «cidadãos», isto é, todos os membros da classe superior da sociedade. ...
De Republica (54 a.C), de Cícero deve muito a Platão. ... Cícero disserta sobre os atributos de diversos tipos de governo – monarquia, aristocracia, democracia e ditadura – mas não se compromete quanto à sua preferência. Ele defende como sistema político ideal, um modelo misto de aristocracia e de governo popular, onde a razão e a justiça imperam, e aqueles que possuem uma superioridade natural governam os inferiores. Fundamentando as suas ideias, analisa e discute, sob a forma de diálogo, as características do verdadeiro homem público, a igualdade de direitos, injustiça, tirania, o culto da família e do lar doméstico e a dissolução dos costumes gregos e romanos. A passagem mais famosa desta obra encontra-se no Livro Sexto, no capítulo chamado Somnium Scipionis (O Sonho de Cipião), que transmite o conceito de Platão das recompensas recebidas pelas almas virtuosas nos céus estrelados. ...
A famosa obra de Santo Agostinho De Civitate Dei (Cidade de Deus) é frequentemente citada como fonte de inspiração da Utopia. Era, evidentemente bem conhecida por More, tendo o autor chegado inclusive a realizar um conjunto de palestras sobre ela. Em A Cidade de Deus, a sua obra mais ponderada, Santo Agostinho adopta a postura de um filósofo da história universal em busca de um sentido unitário e profundo da história. A sua atitude é sobretudo moral: para ele haviam dois tipos de homens, os que se amam a si mesmos até ao desprezo de Deus (estes são a cidade terrena) e os que amam a Deus até ao desprezo de si mesmos (estes são a cidade de Deus). Santo Agostinho insiste na impossibilidade de o Estado chegar a uma autêntica justiça se não se reger pelos princípios morais do cristianismo. De modo que na concepção augustiniana se dá uma primazia da Igreja sobre o Estado. ...
O plano básico da obra de Santo Agostinho é diferente do da República, embora fosse um dedicado admirador de Platão. Pelo mesmo motivo, a obra de More difere em conceitos básicos da de Santo Agostinho, embora se encontrem, inevitavelmente ecos do autor em More.
A obra de Santo Agostinho propunha-se defender o cristianismo contra as criticas dos proponentes da tradicional adoração pagã. Ataca o padrão de imoralidade da vida romana, sujeita à adoração de deuses pagãos e oferece em contraste, o modo de vida proposto pelo cristianismo. Os seus argumentos baseiam-se na sua interpretação da história, tanto da história do Antigo Testamento, como da de Roma. Não existe um plano prático específico para a governação do seu estado ideal e imaginário, mas apenas uma distinção, traçada em linhas filosóficas, entre dois princípios de orientação. Na «Cidade da Terra», o amor a si próprio tem referência sobre o amor a Deus; na «Cidade de Deus», o amor a Deus tem preferência sobre o amor a si próprio.
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